Na foto acima, uma "quadra de azes de ouro... Eu, Mario Pinheiro, Deusdedit e meu querido tio Julio de Mello (Julico)
Assista um especial vídeo onde o autor comenta essa sua crônica
Nessa época, com freqüência, nas tardes de sábado, formávamos uma agradável mesa de pôquer, sempre na casa do Deusdedit. Os parceiros eram sempre os mesmos, o dono da casa, o Mario Pinheiro, o Juquinha, eu e, eventualmente, o Kleber.
Essas reuniões aconteciam na casa do Deusdedit em razão de nossa grande amizade e parentesco. Ele era casado com a Elizinha de Barros Pinheiro, irmã do Francisco e do Mario, primos da Ione, cuja mãe Maria Honoria Pinheiro era irmã do Herculano Pinheiro, pai deles. Estes últimos eram filhos do Major Affonso de Paiva Pinheiro, primeiro prefeito eleito de Jacutinga MG, em 1899. A minha sogra, Dna. Maria Honoria me disse que havia perdido de vista esse seu irmão. Quarenta anos depois, quando sua família estava morando em Campinas SP, ao atender a porta viu um idoso senhor, com o qual estabeleceu o seguinte diálogo:
Ele – Aqui é a residência do senhor José de Souza Toledo?
Ela – Sim...
Ele – A senhora quem é?
Ela – Maria Honória... Maria Honória Paiva Pinheiro...
Ele - Então somos irmãos... Sou o Herculano!.
Esse encontro terminou em choro pelas fortes emoções.
Os três irmãos eram filhos de Theodolinda Barros Guimarães, falecida prematuramente. Órfãos, eles foram criados pela avó materna. Com o casamento de Elizinha com Deusdedit os irmãos foram morar com ela. O Dr. Francisquinho, como era carinhosamente chamado pelos familiares, formado na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, tornou-se Juiz de Direito. Quando a Esther e o Toledo Filho eram alunos internos de um colégio de Piracicaba, o Dr. Francisco de Barros Pinheiro, então Juiz de direito da cidade, expressava o seu carinho com os parentes, levando-os para almoçar com ele aos domingos.
Elizinha era uma senhora de meia estatura, de corpo esbelto, morena, conservadora das tradições familiares, até mesmo no modo discreto de se vestir. Como não tinha filhos cuidava do Deusdedit como tal. O vestia e cuidadosamente penteava o seu cabelo. Mas era pragmática. Deusdedit contava que era amigo do Ademar de Barros, o qual esteve em sua casa para cumprimentá-lo pela passagem de seu aniversário. Tudo que ela lhe oferecia ele não aceitava. Numa das vezes o Dr. Ademar disse-lhe que aceitaria um café. A resposta de Elizinha foi imediata e curta: “ esse o Sr. vai ter que tomar lá em baixo.”
Deusdedit era filho de Picus Pi, aposentado dos Correios e Telégrafos, tendo sido, no fim carreira, Diretor dos Correios de Santos. Conhecia de cor todos os países e suas respectivas capitais, por ter feito parte do “Colis Postaux francês” Ele usou de uma prática comum nos Correios, colocando em seu lugar uma pessoa não funcionária da organização a troco do seu salário integral, com a vantagem de continuar contando tempo para aposentadoria. Depois disso ele esteve em vários ramos do comercio, inclusive como dono de uma farmácia em Santos, na Av. Conselheiro Nébias. Homem afável, de bem com a vida, estatura média, corpulento, cabeça grande, rosto redondo e carnudo, testa larga e ampla, lábios finos, tingia os cabelos cortados rentes de castanho claro, penteados para trás. Deusdedit tinha um dom, um talento natural raríssimo: ele transportava simultaneamente para a pauta qualquer musica tocada, assobiada ou cantada ouvida por ele. Ele era um maestro. Tocava vários instrumentos. Mas o seu predileto era o violino. Ele fez parte da Sinfônica de Santos como Primeiro Violino. Nos primeiros dias da Revolução Constitucionalista, dos idos de 1932, um primo da Elizinha, da família Barros, engenheiro recém formado, morreu no primeiro combate do qual participou. Com isso, Deusdedit pegou corda e imediatamente se alistou nas hostes paulistas. Na frente do Paraná combateu contra o seu irmão Astrolábio, soldado governista. Ambos saíram ilesos dessa escaramuça.Deusdedit sofreu uma rejeição depois de ter sido operado de catarata, o que lhe causo cegueira, no últimos anos sua vida. Deixou-nos com 93 anos.
Na década de 50 fui levar as crianças ao circo e surpreendi-me ao divisar nas imediações o Mario de Barros Pinheiro, acompanhado de sua filhinha Ana Flora. Fui até eles e conversamos bastante. Eu pouco o conhecia. Mas desse encontro surgiu uma solida amizade entre nós. Do meu lado eu, Ione e os nossos filhos Kleber, Keila e Júnior e do lado do Mario, Iracema e seus filhos Ana Flora, Silvio, Ana Lucia, Ana Helena, Rui e Júnior. Este último é meu afilhado de batismo. Mario, também diplomado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, era Promotor Publico da Vara da Família de Santos. Estatura mediana, magro, fala grossa e grave.
Rosto oval, nariz afilado. Lábios finos, cabelos lisos e pretos. Certa vez, meu carro foi guinchado, apesar de eu estar presente e me ofereci para ir até a delegacia com o guarda, o qual aprendeu meus documentos. Recorri ao Mario. Ele se identificou e em seguida, com aquele vozeirão disse ao delegado: Doutor vou mandar lhe prender. Diante da sua surpresa esclareceu que ele exorbitou de suas funções, retendo meus documentos, o que é anti constitucional. Nada mais aconteceu além das desculpas do delegado. Mario era um saudosista. Apaixonado por Jacutinga, onde passou vários anos de sua meninice, numa das vezes que fomos juntos para lá ele foi tirar fotos de túmulos. Na altura em que hoje é a Cooperativa, nessa época de sua vida, passava por ali um pequeno córrego. Com o crescimento da cidade ele foi canalizado, pois hoje existe uma rua movimentada paralela à linha da estrada de ferro. Desta outra vez Mario atravessou a linha e entrou no mato a procura do tal córrego. Quase caiu no riacho. Mas saiu dela rindo. Segundo Iracema, sua esposa, Mario era ruim de boca. Comia pouco. Ela nunca soube de fato do que ele gostava de comer. A Elezinha sabia. Durante as rodadas oferecia o petisco do seu agrado, pasteizinhos, o ponto alto dessas reuniões. Refratário à assistência médica, o saudoso Mario foi vitima de insidiosa doença, por não ter procurado em tempo a assistência médica. De nossa mesa de pôquer o Mário era quem melhor jogava. Nunca mostrava qualquer emoção no manuseio das cartas, as quais ele só as exibia se fosse obrigado pelas regras do jogo.
Conheci o Juquinha na casa do Deusdedit O pouco que sei sobre ele me foi contado pelo Deusdedit. A sua amizade com o Deusdedit tem origem nos Correios, de onde foram colegas por muitos anos. Juquinha também era aposentado dos Correios e Telégrafos. Nascido em Ouro Fino MG, vizinha de minha cidade natal, Jacutinga MG. Durante alguns anos, Juquinha em uma de suas atividades profissionais, esteve por algum tempo encarregado pela entrega e recebimento dos malotes enviados e recebidos das cidades do interior de São Paulo, através de umas das linhas férreas. Nas composições dos trens os Correios tinham uma cabina privativa. Juquinha, para complementar o miserável salário que recebia, abusando dessa disponibilidade, ele adquiria nas cidades do interior do Estado alimentos, pássaros e tudo que fosse fácil de vender em São Paulo.Juquinha tinha uma alcunha, era conhecido como Paga Multa. Presumo que o apelido lhe foi dado por conseqüências de sua atividade paralela.
As nossas tardes de reunião aos sábados na casa do Deusdedit tinham um sabor especial. Além do bate papo descontraído, de colocarmos as noticias da família em dia, desfrutávamos de umas rodadas de pôquer, De pôquer baratinho. Como os parceiros eram sempre os mesmos, o dinheiro rodava de mão em mão igualmente para todos. Na última vez que participamos desse agradável passa-tempo, recordo bem do que aconteceu. Mario foi quem deu as cartas; na mão, eu abri a mesa como de costume; Deusdedit pagou a mesa e repicou alto; o Juquinha acompanhou, pagou; Mario, não só pagou,mas repicou alto; a seguir, eu que tinha na mão um futebol, passei. Nessa altura a mesa estava com monte das coloridas fichas do Estojo de Pôquer do Deusdedit . A vez era do Deusdedit, o qual calmamente reuniu as fichas e as colocou na mesa; faltava o Juquinha, o qual pensou, pensou, consultou as suas cartas e acabou pagando a mesa.
A mesa estava grande. Nunca nas nossas rodadas isso jamais vimos.
Agora, no pedido de cartas definir-se-ia a grande rodada. Eu, até então o único fora do jogo, era o grande espectador da rodada. A vez era do Deusdedit, com o jogo feito, não pediu cartas e fez uma aposta; Juquinha, por sua vez, pediu uma carta, uma dama de ouros, para completar um royal street flash e, ao filar a orelha da sota, começou a tremer, colocou as cartas na mesa e entrou em apoplexia. Alarmou-nos e levantamos para acudi-lo. Mas o acesso durou pouco, ele se restabeleceu rapidamente.
Essa foi a nossa ultima rodada de pôquer; nunca mais nos reunimos para isso!
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Francisco Mello Siqueira
Santos, 13 de Setembro de 2011
Na Usina Henry Borden, 1953
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