quarta-feira, 17 de junho de 2009


CARTEADO

Acordei hoje e me bateu a saudade.
São essas coisas próprias da terceira idade.
Do Mário Barros Pinheiro lembrei-me do nosso antigo
E feliz encontro acidental.
Pela Graça de Deus, ação providencial.
Que fez dele meu grato e particular amigo.

Eu fui ao circo levar as crianças.
Perto de nós, nas vizinhanças,
Divisei o Mario, com Ana Flora.
Há muito tempo, não nos víamos.
Na verdade, mal nos conhecíamos.
Duradoura amizade começou naquela hora.

Ione, de Iracema ficou amiga.
Pra valer, à moda antiga.
Nossos filhos ficaram amigos excelentes.
Aos domingos, ao final do dia,
Mario reunia a família toda e pizas servia,
Nós éramos seus convidados permanentes.

O que dizer do pôquer? Das nossas rodadas?
O cacife era pequeno. As mãos, pingadas.
Como sempre éramos os mesmos parceiros,
A longo prazo, o dinheiro rodava.
Ninguém perdia ninguém ganhava.
Saiamos, em casa, com os mesmos dinheiros.

Freqüentemente, aos sábados, nos reuniamos
Na casa do Deusdedit. É para lá que íamos.
Eu, o Mario e o Juquinha, o Paga Multa,
Apelido no Correios adquirido,
De onde ele, do Deusdedit, era amigo.
Usava marca-passo. Problema de saúde, antigo.

Essas tardes eram prazerosas.
Só pelo papo, deliciosas.
O Kleber, às vezes participava.
A Elizinha, para agradar o irmão,
Servia pasteizinhos, durante a reunião.
Ele era ruim de boca, mas desse quitute gostava.

Numa rodada boa e graúda
A mesa cresceu. Ficou polpuda
Dadas as cartas pelo Mário,
Eu, na mão, abri como de costume.
Deusdedit repicou alto. Mostrou que assume.
O Juquinha colocou na mesa o numerário

Mário, na sua vez, aumentou o repique, na hora.
Eu, que tinha na mão um futebol, caí fora.
Tudo indicava, para os nossos padrões, uma bolada,
O Deusdedit, calmamente pegou as fichas e pagou.
O Juquinha, pensou, pensou, e na mesa, as fichas colocou.
Na pedida de cartas, decidir-se-ia a jogada.

O Deusdedit passou, cartas não pediu.
O Juquinha, ao pedir uma, o jogo conferiu.
O Mario, depois de servir a ambos, duas solicitou.
E o Deusdedit? De pronto, apostou.
O Juquinha, para um “royal street flash”, só faltava uma dama.
Ao filar a orelha da sota, sofreu tremedeira e apoplético ficou.

O jogo parou. Apreensivos ficamos com a sua emoção
A pontinha vermelha da dama levou-o à comoção.
Estava sofrendo um mal-estar desgastante.
O Paga Multa quase morreu. Nos assustou.
O “street” máximo, de ouros, ele fechou!
Transtornado, colocou as cartas na mesa, ofegante.

O Deusdedit, atilado, anteviu que não poderia participar
A sua seqüêncinha, era aquela cujo apelido não posso falar.
As cartas do Mario, como bom jogador, ele manteve retidas.
O susto que sofremos foi grande demais.
Deixamos de jogar pôquer. Reunimo-nos jamais.
Essa rodada eu resgato, por fazer parte de nossas vidas.

- O -

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