Para mim a peça mais bonita
É a chamada canga.
Do arreamento é a principal
E da qual não cabe manga.
A que, aos pares, os bois junta.
Melhor chamada de junta-de-bois,
Para que a força de ambos seja conjunta.
Em madeira de lei é lavrada.
Tem perfil próprio.
Não se parece com nada.
Reta nas extremidades,
Com duas ranhuras em seus lados
Para encaixar os canzils,
Ripas de madeira,
Que mantém os bois atrelados.
É arqueada no centro e para o chão,
Parte conhecida como tamoeiro,
Com dois furos passantes da corda para prender
A canga na tiradeira ou no cambão.
Gostei tanto dessa peça,
Que com ela adornei o escritório,
Pendurada do teto, sobre a minha cabeça.
O rodeiro do carro original
Era todo construído de madeira
E o mancal era chamado de cantadeira
Porque o forte atrito provocava um som peculiar.
O rodeiro do nosso era todo de ferro. Nova versão
Daí o carro ser conhecido por carroção.
Projeto atualmente usado.
A peça seguinte mais importante
É conhecida por cambão ou cabeçalho
Sobre o qual é fixada a mesa ou assoalho
Na sua ponta existe um furo transversal,
A chaveta e um pino vertical, de ferro.
Entre os dois é fortemente fixada a canga,
pelo tambueiro, hoje, de corda resistente.
Na canga são presos os dois bois de tração.
Um de cada lado do cambão.
A junta-de-coice, ou junta-mestra, bem formada,
É a mais importante para a segurança da boiada.
A seguinte mais importante é a junta-de-guia,
Responsável por levar o carro ao seu destino, com categoria.
No treinamento, o boi é condicionado
A uma espécie de código de ordens,
Segundo o qual não haverá desordens.
O Carreiro a vara-de-ferrão sacode
E o som das argolinhas, tilintando à sua ordem, ao bois eclode.
Dirigidas a cada qual pelo respectivo nome.
Cada boi fica preso na canga com um canzil de cada lado do pescoço
Interligados por baixo, pela barbela do boi,
Por um pedaço de corda, a brocha, sem esforço.
Os bois são também ligados pelos chifres
Com corda de boa qualidade, a brocha,
Amarrados nas argolinhas, com nó que arrocha.
Entre as junta-de coice e junta-de-guia
Atrelam-se as juntas intermediárias, de agregação,
Adicionadas para aumentar a força de tração.
Não são de tanta importância.
Reservadas para bois em treinamento,
Sem perder a relevância,
Destinam-se a formação de juntas de reserva,
Para garantir um extra atendimento.
Outra peça importante do conjunto
É a da ligação das juntas entre si. É de madeira.
É conhecida por tiradeira.
Em ambas as pontas é munida de chaveta,
O rasgo para a passagem da corda de ligação
Seja com o tamoeiro, da canga seguinte ou o do cambão.
O nosso carro foi preparado
Por um mestre Carreiro, o Seu Rosino.
Na juventude ele chegou a usar
Até dez juntas de bois nas pirambeiras,
Para arrastar grandes toras de madeiras.
O treinamento de bois era com ele.
O nosso carro era para três juntas de bois,
Atrelados dois a dois.
No coice, bois de quarenta ou mais arrobas.
De um lado o Brioso e do outro o Ponteiro.
Na junta-de-guia um par, de chifres amplos, de caracus,
De um lado o Retrato e do outro o Faceiro.
Na época da colheita de café,
No fim da tarde Rosino chegava,
O carro lotado até o topo da esteira.
Brandia a vara-de-ferrão e ordenava,
Em alta voz, sempre falando com os bois.
Aos poucos o carro manobrava.
Dirigindo-se ao Brioso e ao Ponteiro,
Para entrar de ré no terrreiro,
Sem esbarrar no portão
E descarregar o carro, então.
Um belo espetáculo de maestria,
Devido ao alto grau de sua capatazia.

Francisco Mello Siqueira
Santos, 8 de Dezembro de 2010

4 comentários:
Belíssima poesia. Bons tempos. Boas recordações. Saudades.
Parabéns!
Beijos
Parabéns pelo poema,
muito mais que uma enseñanza,
uma valida e bela lembrança dos tempos que nao voltam mais.
Parabéns pela honrosa descriçao,
das talhas que se usavam
nos carros e bois,
a desbravar o sertao.
parabéns irmao de sentimento.
Por nosso retorno ao passado
Onde o choro do carro
nos ensina que o tempo sempre nos traz um recado!
QUE FELICIDADE E EMOÇÃO PODER
TER COMPARTILHADO ALGUMAS VEZES,
OBSERVANDO SR ROSINO FAZENDO A "MANOBRA" DO CARRO DE BOI.SÃO RECORDAÇÕES PARA SEMPRE EM MINHAS
LEMBRANÇAS DA QUERIDA SANTA CLARA.
A CANGA AINDA EXISTE E ESTÁ GUARDADA AQUI EM MINHA CASA.
PARABÉNS PELA BELA POESIA.
BEIJOS,
SUA FILHA KEILA
JACUTINGA 27 DE DEZEMBRO DE 2010
Parabéns!
Belissimas palavras e um emocionante vídeo.
Obrigado por proporcionar estes momentos.
Araçatuba/SP/Brasil
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