Havia dois tipos de trole. O Trole de Serviço e o Trole de Visitas.
O Trole de Serviço tinha somente um banco, o da frente, em toda a largura do trole, munido de estribo, podendo acomodar quatro pessoas incluindo o operador de serviço. Nesse banco ficava sentado o operador conhecido por Troleiro.
O assoalho de madeira do Trole de Serviço era munido de 6 (seis) fueiros; nos quatro cantos e no meio, de ambos os lados, na base dos quais eram instaladas taboas de 0,30 m de largura à guisa de segurança para pessoas e materiais.
O operador de Trole, o Troleiro ficava sentado no banco do qual, portando uma vara de madeira com a ponta de cobre, acionava uma linha elétrica bipolar de fios de cobre nus, instalada ao lado e ao longo da via férrea para dar as ordens para operador da Máquina, o Maquinista através de sinais convencionais de forte e muito sonora campainha, instalada no recinto da Máquina.
A máquina do topo da Serra era bem maior, com a capacidade de operar um cabo de aço de duas polegadas de diâmetro e com mil metros de comprimento. A máquina da cota 350 m era para operar o mesmo cabo, mas com apenas 500 metros de comprimento.
Ao longo da linha ferrrea o cabo era protegido por roletes de madeira contra o seu contato com a terra e nas mudanças de direção ao chegar às Máquinas era ancorado por roldanas de aço instaladas em blocos de concreto armado.
O cabo era ligado ao trole por um terminal de aço de forma cônica com olhal para um pino de duas polegadas de diâmetro para fazer a ligação com o Trole. Esse terminal mais conhecido por engate era instalado estando fixado em um pedestal, na posição vertical, com a ponta do cabo introduzida no seu interior. As tramas e seus respectivos fios eram separados e abertos formando uma espécie de vassoura dentro do terminal, quando então era preenchido o interior do Engate com zinco fervente ocupando todo o espaço interno do engate.
Havia uma inspeção sistemática dos cabos de aço do Inclinado para verificação de fios rompidos (quebrados) que poderiam por em risco a segurança da inssstalação.
O outro Trole era chamado de Trole de Visitas, munido de bancos articulados e até de uma estrutura para receber cobertura de lona nos dias de chuva.
Quando cheguei à Usina, em 20 de janeiro de 1947, época da instalação das Unidades números 4 e 6, das quais participei inicialmente, a manutenção do Inclinado era feita pelo pessoal de obra, sob orientação de um holandês tido como alemão e conhecido por Mr. Bemmel, um expert em instalações e manutenção sistemas funiculares.
Com o termino das obras o serviço passou para a Operação bem como o funcionário treinado para a realização desse serviço e seus auxiliares.
Ao longo dos anos, tanto anteriores como seguintes ao meu ingresso como funcionário da Usina, nenhum acidente ou incidente havia sido registrado no sistema de Troles. Era tido como confiável e sua rotina operacional plenamente integrada aos usos e costumes dos funcionários. Era e ainda continua sendo uma das mais rápidas, interessantes e extraordinárias opações de transporte disponíveis entre o pé e o alto da serra. De fato, um passeio turístico impar e inigualável...!
Entretanto, no dia 27 de Agosto de 1959 a fatalidade se abateu sobre as famílias da Usina da Light, com um trágico e grande acidente.
Logo após o termino do expediente que se dava ás 16:00 horas o Trole de Serviço ligado a Máquina da cota 350 m lotado pelos trabalhadores que deixavam a faina do dia logo após a sua saída despencou-se serra abaixo vitimando com a morte 31 funcionários, dos quais 30 no ato do acidente e mais um hospitalizado mas que não resistiu aos ferimentos.
O cabo de aço arrebentou-se no interior do engate. Isso porque cerca de uns dois centímetros da extremidade de saída do engate não foram preenchidos pelo zinco, o que passou despercebido pelo pessoal que participou da sua instalação. Com o tempo sob as frequentes chuvas a ferrugem prosseguiu até romper o cabo.
Pouco antes desse lastimável acidente o cabo de aço havia sido submetido à inspeção de rotina. Hoje em dia, utilizando-se técnicas modernas de inspeção, tais como RX certamente aquela corrosão poderia ter sido detectada e a potencial falha antecipada, evitando-se o catastrófico acidente.
Passados tantos anos desse triste acontecimento, ou seja, há 53 anos, procurei o auxilio do Waldir Rebuiti, meu amigo e irmão maçom, aposentado da COSIPA para ajudar-me no resgaste de algumas informações sobre esse trágico episódio.
Waldir viveu muitos anos da sua adolescência na Usina, onde morava com seu pai, conhecia muita gente. Participou desse lastimável acidente ajudando a recolher os despojos dos acidentados quando tinha 29 anos de idade. Pesquisou muito sobre essa malfadada ocorrência com contemporâneos e em fontes como a A Tribuna de Santos. Deixo registrado aqui os meus agradecimentos a ele, pela extraordinária ajuda que me deu na complilação dessas notas.
Ele é filho do saudoso Adolfo Rebuiti, um dos mestres ligados diretamente a mim, responsável por uma turma de manutenção de serviços externos à Casa de Força, da qual muitos faleceram nesse lastimável acidente. Nesse dia o Adolfo estava afastado do serviço por motivo de saúde.
São os planos insondáveis de Deus!
Em Setembro do ano passado, ele, Kleber e eu, visitamos o acampamento da Usina Henry Borden quando muitas memórias afloraram em nossas mentes.
Esse trágico acidente foi também recordado.

FRANCISCO MELLO SIQUEIRA
Santos, 1 de Julho de 2012
Através do vídeo acima, pode-se ter uma idéia da impressionante beleza da vista de quem desce a serra pelo sistema funicular da Usina Henry Borden.





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